Chico Santos, do Rio
20/02/2009
O constrangimento causado pela declaração do senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE) à revista "Veja" desta semana de que "boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção" não inibou a direção da estatal Furnas Centrais Elétricas de levar adiante a proposta de substituir, em plena vigência dos mandatos, o presidente e o diretor de investimentos da Fundação Real Grandeza, fundo de pensão dos seus empregados. O comando de Furnas, maior geradora estatal de energia elétrica do país, é da cota do PMDB dentro do atual arranjo político do governo. Sindicatos prometem greve.
A proposta de substituição de Sérgio Wilson Ferraz Fontes (presidente) e de Ricardo Carneiro Nogueira (diretor) será votada em reunião do Conselho Deliberativo da Real Grandeza marcada para as 14h de quinta-feira, dia 26, após o Carnaval. Eduardo Henrique Garcia, gerente da área financeira de Furnas será o presidente e, interinamente, o diretor de investimentos.
Desejo expresso da direção da empresa, sob o argumento de mau relacionamento com os dois dirigentes, a proposta foi apresentada em parceria pelo presidente do Conselho, Victor Albano Esteves, e pelo conselheiro Wilson Neves dos Santos, indicado por outra patrocinadora, a também estatal Eletronuclear.
Dois conselheiros indicados por Furnas, Ronaldo Neder, titular, e Marcos Vinicius Vaz, suplente, renunciaram ontem aos seus cargos, alegando razões pessoais. Com eles, são seis os ex-conselheiro do fundo de pensão indicados pela patrocinadora que renunciaram desde janeiro do ano passado para não terem que votar na proposta de substituição dos membros da diretoria executiva.
No ano passado, a carga peemedebista pela troca na fundação vinha do ex-prefeito do Rio Luiz Paulo Conde, indicado para presidir Furnas por influência do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Em setembro, Conde deixou o cargo, por problemas de saúde, e foi substituído por Carlos Nadalutti Filho, funcionário de carreira de Furnas, mas que, segundo disse ao sair o próprio Conde, também foi indicado pelo partido. O deputado Cunha, um dos mais influentes parlamentares do PMDB do Rio, sempre negou ser o motor da tentativa de mudar a gestão da Real Grandeza, mas nos bastidores de Furnas sua influência é considerada líquida e certa.
Para substituir o conselheiro Neder e poder assegurar a vitória da proposta na reunião de quinta-feira foi indicado para o conselho da fundação o chefe de gabinete de Furnas, Luiz Roberto Bezerra. A fundação tem seis conselheiros, três indicados pelas patrocinadoras e três eleitos pelos participantes, ativos e inativos. O presidente tem o voto de minerva.
Em entrevista ao Valor, Esteves, presidente do conselho, disse que sua proposta de mudança não é subordinada nem à direção de Furnas e nem a pressão política do PMDB. "Não tenho nenhuma relação com alas políticas e nem recebo pressão de seja lá quem for. As propostas que apresento são com o objetivo de melhorar", disse.
A justificativa da proposta de troca dos dois diretores diz que a questão da substituição "vem agravando o relacionamento " entre a fundação e as patrocinadoras e que isso "vem trazendo prejuízos para todas as partes envolvidas". Na semana passada, a direção de Furnas já havia dito, em nota, que pretendia fazer as substituições por problemas de relacionamento.
Escolhidos em agosto de 2005 para um mandato de três anos que terminaria em outubro deste ano, Fontes e Nogueira entraram para a direção da Real Grandeza após a fundação ter perdido em 2004 R$ 153 milhões com aplicações no falido Banco Santos e com apenas R$ 2 milhões de superávit atuarial. De lá até agora a Real Grandeza acumulou rentabilidade de 81% sobre o patrimônio, contra exigência atuarial de 40%, e o superávit chegou a R$ 1,2 bilhão.
O fundo tem patrimônio de R$ 7,3 bilhões, sendo R$ 6,3 bilhões livres para investimento. Em novembro do ano passado, Fontes foi eleito o dirigente de fundo de pensão do ano em votação aberta dos membros da Associação Brasileira de Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). Questionado sobre o fato, Esteves disse que o presidente da fundação merecia o prêmio, mas insistiu que a troca era para "melhorar a relação".
Geovah Machado, um dos conselheiros eleitos, disse que o esforço para derrubar os dirigentes da fundação "é uma luta de interesses escusos" e afirmou que "as pessoas estão desesperadas" e que "a greve é inevitável". Antonio Maria Claret, presidente do Sindicato dos Eletricitários de Brasília, disse que, apesar das dificuldades da data, os mais de 20 sindicatos de empregados de Furnas vão convocar uma paralisação para quinta-feira.
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